MARIANA VIOLANTE | DIRIGENTE SINDICAL
É na guerra das percepções nos nossos telemóveis que se ganham os votos dos distraídos. É por isso que cabe a cada um de nós ganhar consciência para não cair nas “esparrelas” da desinformação.
Exactamente no mesmo dia em que, na Assembleia da República, se discutiu muito mediaticamente e com espalhafatoso suor, berros e indignação, a “urgentíssima” importância de banir o uso da burca a meia dúzia de mulheres que com ela se cobrem no seu dia-a-dia, chumbou-se, sem qualquer alarido ou nota digna desse nome na imprensa, um conjunto de propostas de alguns partidos à esquerda para aprofundar as protecções sócio-económicas do Estatuto do Idoso.
Alguns dos digníssimos deputados da Nação, enquanto nos entretiveram com os falsos perigos de islamização da sociedade portuguesa, consubstanciados em precisamente zero factos, negaram a uma das camadas mais fragilizadas da nossa população – as pessoas idosas – direitos que iriam proteger ou aprofundar garantias de acesso a uma habitação digna, a cuidados básicos de saúde, a pensões que lhes permitissem viver dignamente na última etapa das suas vidas, depois de uma vida de trabalho.
Na mesmíssima semana em que o Governo anunciou a intenção de mexer na legislação laboral, dando-nos a conhecer de soslaio, à socapa e com eufemismos palavrosos o ataque cerrado e sem precedentes aos nossos direitos adquiridos com tanta luta, os extremistas do costume, que se afirmam anti-sistema, faziam o frete ao Governo de desviar a atenção para os “problemas” da nacionalidade – outro assunto que merece um olhar mais sério para os factos, em vez da habitual instigação do medo da diferença baseado em mentiras e preconceitos. Mais: o mesmo líder extremista, auto-proclamado “homem do Povo” do alto do seu condomínio privado, apenas se mostrou ligeiramente inclinado contra o “estúpido pacote laboral” (palavras suas), na véspera da grande Greve Geral (11 de Dezembro) organizada pelos trabalhadores, quando os ventos da luta por direitos se tornaram impossíveis de ignorar, mais parecendo uma cana de bambu vergada...
DESINFORMAÇÃO = FALÁCIAS, MENTIRAS E DETURPAÇÕES
Será obra do acaso este tipo de manobras? É mera coincidência que se tente trazer para a “bolha mediática”, de forma falaciosa, com mentiras e deturpações, temas polémicos e que geram discussão acesa, quando se pretende passar pelos “pingos da chuva” as leis que realmente mexem com a vida de todos? Não, não é por acaso!
Esta recorrente estratégia de distracção está mais acesa do que nunca. É na guerra das percepções nos nossos telemóveis que se ganham os votos dos distraídos. E é por isso que cabe a cada um de nós ganhar consciência para não cair nas “esparrelas” da desinformação, e procurar os dados da Ciência, e não os que confirmam as nossas suspeitas infundadas.
Entender que a nossa rua, o nosso bairro, a nossa amiga que conhece não sei quem – a nossa “bolha” de rede social – não é a realidade toda. Mais do que nunca, não podemos ceder ao clique fácil que nos diz que temos razão, sem nos apresentar provas de nada.
As árvores de Natal que muçulmanos vandalizaram, afinal, eram uma tradição sueca natalícia; o burro maltratado por ciganos em Portugal, afinal, foi há mais de 10 anos e noutro país; as mortes de cristãos perseguidos na Nigéria – sempre de lamentar e condenar – foram, afinal, menos do que os próprios concidadãos muçulmanos que os tentam defender.
É importante manter o foco no essencial e na verdade, porque é disso que depende o sucesso da luta dos trabalhadores: da verdade, da justiça, da luta e da unidade!