MARIANA VIOLANTE
Estamos a voltar a um “caldo social” em que se questiona novamente se a mulher deve ter direitos humanos, se pode trabalhar fora de casa, ganhar um salário igual por um trabalho igual, se pode emitir opiniões ou ser dona da própria vida.
Geralmente, as formas mais fáceis de dividir os trabalhadores restringem-se ao local de trabalho, através da instrumentalização de muitas pequenas coisas, como os mecanismos injustos da avaliação de desempenho ou da atribuição de subsídios, suplementos e horas extraordinárias, por exemplo.
Quem, entre nós, não sabe como funciona? Há sempre os problemas do “porque é que ele teve excelente e eu só tive regular”? Ou do “só dão horas a quem lhes interessa”. São formas de (des)organizar o trabalho e a nossa vida que servem para nos dividir e para nos ocupar dos pequenos problemas, para não termos tempo de lutar contra problemas maiores: não ter um salário digno e tempo para descansar e viver a nossa vida como gostaríamos.
Mas existe uma forma de divisão da sociedade e dos trabalhadores que se tem agravado, e que não se manifesta apenas no local de trabalho. Levamo-la para casa e reflecte-se na nossa vida de forma perniciosa e profunda.
Falo da nova-velha tendência para acentuar supostas diferenças de género. Em pleno 2026, são cada vez mais os vídeos, textos ou conversas de café em que se volta a querer mandar nas vidas e nos corpos femininos. E sabem quando é que se costuma trazer estes assuntos à baila? Quando a vida de todos está prestes a piorar com mais uma reforma, mais um “pacote laboral”, ou uma onda de “modernidade” que assenta que nem pau no lombo do Povo.
Não é por acaso. É bem orquestrado, tem muito investimento por trás e o cálculo é meticuloso.
AS ANGÚSTIAS DO MACHO-FERIDO
Se a vida do homem trabalhador está prestes a piorar, há que arranjar rapidamente um alvo ao lado - nunca para cima! - que arque com as culpas. E num Mundo onde as conquistas das mulheres parecem ainda, a tantos homens, uma perda de privilégios (não confundir com perda de direitos - não ter de lavar a loiça não é um direito!), é tão fácil soprar ao ouvido do macho-ferido que a culpa da vida dele estar difícil é da mulher, que já não se contenta em ser “fada do lar”!
A culpa dele chegar a casa tarde e exausto e sem energia para mais nada não é do patrão que o explora, não senhor! É da mulher que ainda quer que ele trate do jantar! A culpa dos putos ficarem até às 8 da noite à espera no ATL não é da brutal desregulação dos horários laborais, como se ainda vivêssemos no sec. XIX, essa agora! É de as mulheres também terem de andar na rua a trabalhar! A culpa de todos os males é dessas feministas que se põem com estas ideias de querer dar sonhos e ambição às mulheres!
Por cada conversa de café em que voltamos a questionar se não era melhor a Maria ficar em casa e o Manel a ganhar o pão, é menos uma conversa sobre as consequências do “banco de horas”. Por cada lenga-lenga sobre as mulheres serem mais fracas e burras, lá nos distraímos da precariedade laboral imposta aos nossos filhos e filhas - essa sim, por igual -, nos contratos a termo para o resto das suas vidas. Por cada debate asqueroso nos programas de TV sobre se os homens (coitados!) se conseguem controlar para não violar uma rapariga, lá vem de fininho mais uma maneira de poder despedir sem justa causa!
“CAVAR” NOVAMENTE O FOSSO ENTRE HOMENS E MULHERES
Esta nova moda entre jovens, que mais parecem os tetra avôs deles, de acharem que as mulheres se devem subjugar ao portento masculino, é uma tendência finamente orquestrada com um objectivo muito claro: cavar de novo e bem fundo o fosso entre homens e mulheres que demorou anos a tapar. Inventar uma “guerra dos sexos” sob falsos argumentos facilmente desmontáveis, mas que, como todas as fake news, demoram muito mais tempo a desmentir do que a disseminar.
Sim, existem muitas diferenças entre homens e mulheres. Mas também as mulheres têm direito a alcançar direitos iguais! Os homens têm de perceber que fazemos todos parte da mesma classe - a trabalhadora - e que temos de seguir unidos contra o que realmente nos oprime! E o que nos oprime não é a divisão de tarefas domésticas ou ter de respeitar a autonomia de uma mulher. É o sistema que nos obriga a trabalhar muito e por muito tempo, e a receber pouco. Que cada trabalhador saiba estar ao lado das suas companheiras mulheres - seja em casa ou no local de trabalho -, isso sim, é de homem.